O evento mais emblemático do calendário de Ourinhos, a FAPI (Feira Agropecuária e Industrial), que deveria ser símbolo de orgulho e tradição, se transformou em um escândalo administrativo que já chegou ao Ministério Público.
Denúncias apontam irregularidades graves no credenciamento da entidade responsável pela organização, contratações sem transparência e dispensa de licitação feita às pressas — inclusive quando a feira já estava acontecendo.
De acordo com documentos enviados à Promotoria, a Prefeitura publicou um edital de manifestação de interesse em abril de 2025, para escolher uma entidade que organizasse a 56ª edição da FAPI.
No entanto, apenas a ACEO (Associação Comercial e Empresarial de Ourinhos) foi credenciada — mesmo sem possuir qualquer atividade registrada relacionada à promoção de eventos, rodeios ou shows.
O CNPJ da entidade comprova que sua atuação é voltada apenas a “atividades associativas patronais e empresariais”, o que não atende às exigências do próprio edital .
Apesar da irregularidade, a Prefeitura manteve o credenciamento e delegou à ACEO a montagem de toda a estrutura do evento — palco, camarotes, arquibancadas e stands — enquanto ficou responsável apenas pelos shows artísticos.
Porém, a denúncia aponta que até mesmo os banheiros químicos, tradicionalmente custeados pela entidade, foram pagos com dinheiro público através de dispensa de licitação nº 37/2025, aberta no mesmo dia de início da feira (11 de junho) e homologada dois dias depois, quando o evento já estava em andamento .
Mais grave ainda: prints de mensagens e trechos da ata do processo revelam que as empresas concorrentes alertaram para a impossibilidade de entrega dos equipamentos a tempo, mas, mesmo assim, a vencedora foi escolhida e já havia entregue os banheiros antes da conclusão do certame.
Segundo o documento, isso caracteriza possível direcionamento e fraude no processo de dispensa.
A Promotoria também apura quem realmente custeou os camarotes e estacionamentos, pois há indícios de que valores pagos pelo público foram depositados em contas particulares, inclusive de servidores ligados à Secretaria de Obras — um deles conhecido como “Chileno”, já citado em outras denúncias.
“A FAPI, que sempre foi orgulho da cidade, virou símbolo do improviso e da falta de transparência. A prefeitura assumiu gastos que não lhe cabiam, e há fortes indícios de direcionamento e favorecimento”, diz trecho do documento encaminhado ao Ministério Público.
O caso deve seguir sob investigação por possíveis violações à Lei de Licitações (14.133/2021) e por ato de improbidade administrativa, podendo envolver responsabilidade direta do prefeito e de secretários envolvidos na execução do evento.